Cavalaria na segurança pública: como funciona o uso de cavalos no controle de multidões

A presença de cavalos em grandes centros urbanos, especialmente em dias de jogos de futebol, manifestações ou grandes eventos, costuma atrair a atenção do público. Para o leigo, pode parecer um erro manter animais em um mundo dominado por viaturas blindadas e tecnologia de monitoramento.

No entanto, para as forças de segurança pública e defesa, a cavalaria continua sendo um dos instrumentos mais eficazes e insubstituíveis para a manutenção da ordem e o controle de distúrbios civis.

Diferente do que muitos pensam, o uso do cavalo não é uma tradição mantida por nostalgia. Trata-se de uma ferramenta técnica, uma unidade de força capaz de realizar tarefas que dezenas de policiais a pé não conseguiriam com a mesma eficiência.

Este artigo analisa em detalhes como essa transição histórica ocorreu, as vantagens táticas dessa modalidade e como é a rotina desses animais e seus cavaleiros.

Breve histórico da transição da cavalaria de guerra para a segurança pública

Historicamente, a cavalaria foi o braço decisivo de quase todos os exércitos do mundo por milênios. Desde as carruagens egípcias até as cargas de cavalaria das Guerras Napoleônicas, o cavalo era sinônimo de velocidade, choque e prestígio militar.

No Brasil, o Exército Brasileiro mantém essa tradição viva, sendo a arma de cavalaria responsável pelo reconhecimento e segurança em larga escala, embora hoje utilize majoritariamente veículos blindados de rodas e lagartas.

No entanto, com a modernização da guerra no século 20 e a introdução de metralhadoras e tanques, o cavalo perdeu seu espaço no campo de batalha convencional. Foi nesse momento que as forças de segurança perceberam que as características que tornavam o cavalo um guerreiro temível — sua massa, sua altura e sua capacidade de intimidar — eram perfeitas para o policiamento urbano e o controle de multidões.

A transição da “Cavalaria de Choque” para a “Cavalaria de Polícia” ocorreu conforme as cidades cresceram e os conflitos sociais passaram a exigir uma força que fosse superior à força física de um homem a pé, mas que não envolvesse necessariamente o uso de armas de fogo.

Unidades como a Polícia Montada do Canadá (RCMP) e, no Brasil, os Regimentos de Polícia Montada das Polícias Militares, tornaram-se referências mundiais na adaptação desse animal para o ambiente das metrópoles.

Vantagem tática: o fator psicológico e a visão privilegiada

O emprego da cavalaria na segurança pública baseia-se em três pilares táticos fundamentais: o impacto psicológico, a altura e a massa física.

O fator psicológico

O cavalo possui uma presença imponente. Para um manifestante ou um indivíduo em meio a um tumulto, encarar um animal que pesa entre 500 e 600 quilos gera um instinto natural de preservação.

A simples presença de uma linha de cavalaria costuma ser suficiente para fazer com que uma multidão recue sem que seja necessário o contato físico direto. É o que chamamos de “demonstração de força” preventiva.

Visão privilegiada

Um policial montado está a uma altura significativamente maior do que um policial a pé. Isso oferece uma vantagem estratégica crucial: o cavaleiro consegue enxergar por cima da multidão, identificando líderes de distúrbios, focos de incêndio ou objetos sendo arremessados a grandes distâncias.

Essa visão de 360 graus permite que o comando da operação receba informações em tempo real sobre a movimentação da massa, facilitando a tomada de decisão.

Força de massa e deslocamento

Em termos de física, um cavalo em movimento possui uma energia cinética que nenhum grupo de pessoas consegue conter apenas com força muscular.

Isso permite que a cavalaria abra corredores em multidões densas para a passagem de ambulâncias ou para a extração de detidos, exercendo uma pressão física constante e controlada que dispersa aglomerações de forma muito mais rápida que o policiamento a pé.

O treinamento: como os cavalos são dessensibilizados

Um cavalo “civil”, por natureza, é um animal de fuga. Seu instinto diante de um barulho forte ou de fumaça é correr. Para que ele se torne um animal de policiamento, ele precisa passar por um rigoroso processo de treinamento chamado dessensibilização ou “cura de espanto”.

O treinamento começa com a seleção do animal. Nem todo cavalo tem o temperamento adequado para a polícia. Busca-se animais com temperamento dócil, mas corajosos. Uma vez selecionado, o animal é exposto gradualmente a estímulos que encontraria em um distúrbio real:

  • Barulhos: Bombas de efeito moral, gritos, sirenes e bumbo de torcidas organizadas.
  • Fumaça e Fogo: O cavalo aprende que a fumaça colorida ou o fogo controlado no chão não representam uma ameaça direta se ele seguir o comando do cavaleiro.
  • Obstáculos: O animal é treinado para passar por cima de lonas plásticas, poças d’água e objetos estranhos espalhados pelo chão.
  • Pressão Física: O animal aprende a encostar o peito ou o flanco na multidão sem morder ou dar coices, entendendo que deve “empurrar” e não atacar.

Esse processo cria um vínculo de confiança extrema entre o policial e o animal. O cavalo passa a ignorar seus instintos básicos de sobrevivência para obedecer cegamente às ajudas (comandos de perna e rédea) do seu cavaleiro.

Equipamentos: proteções para o animal e para o policial

Para operar em ambientes hostis, tanto o animal quanto o policial precisam de proteção especializada. Diferente do equipamento esportivo, o equipamento de cavalaria policial é voltado para a defesa contra objetos arremessados (pedras, garrafas e paus).

Para o cavalo:

  • Viseira de Policarbonato: Uma placa transparente que protege os olhos e a face do animal contra estilhaços e pedradas, sem prejudicar sua visão.
  • Caneleiras e Protetores de Boleto: Proteções rígidas nas patas para evitar ferimentos causados por objetos jogados ao chão.
  • Peitoral Reforçado: Protege a frente do animal durante o avanço sobre a multidão.
  • Manta e Selim Tático: Desenvolvidos para garantir o conforto do animal durante longas horas de serviço e estabilidade para o policial.

Para o policial:

  • Capacete com Viseira: Semelhante ao do choque, mas adaptado para o uso montado.
  • Caneleiras e Joelheiras: Como as pernas do policial ficam expostas lateralmente no cavalo, são áreas vulneráveis a ataques de quem está no chão.
  • Bastão Longo: O policial de cavalaria utiliza um bastão mais comprido do que o padrão, permitindo que ele alcance o nível do solo ou mantenha a distância necessária sem precisar se inclinar excessivamente.
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Quais policiais fazem uso da cavalaria

No Brasil, o uso da cavalaria é distribuído principalmente entre as seguintes instituições:

  1. Polícia Militar (PM): Praticamente todos os estados brasileiros possuem um Regimento de Polícia Montada (RPMont). São eles os responsáveis pelo policiamento preventivo em parques e pelo controle de distúrbios em grandes eventos.
  2. Exército Brasileiro (EB): O Exército mantém unidades de Cavalaria Hipomóvel, como os Dragões da Independência (1º RCG), que além de funções cerimoniais, possuem treinamento de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).
  3. Força Nacional de Segurança Pública: Em situações de crise extrema em estados, a Força Nacional pode empregar contingentes de cavalaria cedidos pelas polícias militares estaduais.
  4. Polícia Federal (PF): Embora menos comum no dia a dia urbano, a PF pode utilizar o apoio de montarias em regiões de fronteira ou áreas de difícil acesso geográfico para fiscalização.

Para ingressar nessas unidades, o policial geralmente precisa, primeiro, passar no concurso público da instituição e, após o período de estágio ou tempo de serviço, realizar o Curso de Especialização em Policiamento Montado.

Quais raças de cavalos são mais utilizadas?

As forças policiais e militares no Brasil escolhem as raças de seus cavalos com base em características específicas: temperamento dócil (para não se assustarem com multidões e barulhos), resistência física e porte imponente.

Aqui estão as principais raças utilizadas no policiamento montado e em cerimoniais:

Brasileiro de hipismo (BH)

É uma das raças mais comuns, especialmente nas grandes capitais e unidades de elite. Por ser um animal de porte atlético e grande estatura, impõe respeito e possui excelente agilidade para deslocamentos rápidos.

Mangalarga marchador

Muito valorizado pela sua resistência e, principalmente, pelo conforto da sua marcha. Como o policial passa muitas horas montado em patrulhamento, a marcha desta raça reduz o desgaste físico tanto do cavaleiro quanto do animal.

Lusitano

Conhecido por sua inteligência e coragem, o cavalo Lusitano é muito utilizado em unidades de choque e cavalaria de elite. É um animal que responde muito bem aos comandos do cavaleiro em situações de estresse, como em grandes eventos ou manifestações.

Crioulo

Muito utilizado nas unidades do Sul do Brasil. É uma raça extremamente rústica e resistente, adaptada a longas jornadas de trabalho e diferentes condições climáticas.

Percheron e Bretão

Embora menos comuns para o patrulhamento dinâmico, essas raças de tração (ou seus cruzamentos) são por vezes utilizadas quando se busca um animal de grande porte e força excessiva, geralmente para funções de grande impacto visual ou cerimonial.

Características desejadas para o serviço:

Independente da raça, os cavalos selecionados passam por um rigoroso treinamento de dessensibilização, onde aprendem a manter a calma diante de:

  • Estampidos e fogos de artifício.
  • Gritos e aglomerações.
  • Fumaça e luzes intermitentes (giroflex).
  • Contato físico próximo com o público.

Como é feito o cuidado com os animais

Um cavalo de polícia é considerado um “servidor público” de quatro patas. O cuidado com sua saúde e bem-estar é prioridade absoluta, tanto por questões éticas quanto pelo alto custo de treinamento de um novo animal.

Alimentação e Nutrição

Os cavalos recebem dietas balanceadas, compostas por feno de alta qualidade, ração específica e suplementos vitamínicos. Como o trabalho de controle de multidões exige muito esforço físico e gera estresse térmico, a hidratação é rigorosamente controlada.

Saúde Veterinária

Os regimentos contam com hospitais veterinários próprios e equipes de plantão. Há um cronograma rígido de vacinação, vermifugação e, principalmente, o cuidado com os cascos (ferreiramento). Um cavalo com problema no casco é um cavalo fora de combate.

Aposentadoria

Após cerca de 15 a 20 anos de serviço, ou quando o animal apresenta sinais de desgaste que impedem o trabalho seguro, ele é “reformado”. Muitos estados permitem que o próprio policial que montou o animal por anos o adote, ou o animal é destinado a programas de equoterapia, onde seu temperamento calmo ajuda no tratamento de crianças com deficiência.

Doutrina de emprego: coordenação com o choque a pé

A cavalaria nunca atua isolada em um cenário de crise grave. Ela faz parte de um ecossistema tático. A doutrina clássica de controle de distúrbios civis prevê o uso escalonado da força.

Normalmente, a tropa de choque a pé forma a primeira linha de contenção, utilizando escudos e formando barreiras físicas. A cavalaria fica posicionada em pontos estratégicos, logo atrás ou nas alas laterais.

O momento da carga

A cavalaria é acionada quando a linha de infantaria (policiais a pé) não consegue mais conter o avanço da multidão ou quando é necessário dispersar o grupo rapidamente. Ao receber o comando, os cavaleiros avançam em formação de linha ou cunha.

A velocidade não é de galope desenfreado, mas sim um trote ou galope curto controlado, que mantém a formação unida e exerce a pressão necessária.

Coordenação tática

Enquanto a tropa a pé mantém o terreno conquistado, a cavalaria realiza incursões para dispersar pequenos grupos que tentam flanquear a polícia. Essa sinergia é treinada exaustivamente para evitar que policiais a pé sejam atropelados pelos próprios cavalos e para garantir que o recuo da multidão seja direcionado para rotas de fuga seguras, evitando o esmagamento de pessoas.

Curiosidades sobre a Cavalaria no Brasil e no mundo

  • Cavalaria do Vaticano: A Guarda Suíça não utiliza cavalos para proteção direta, mas a polícia da Itália (Carabinieri) possui uma das cavalarias mais elegantes e eficientes do mundo, frequentemente vista em patrulhas nos arredores da Praça de São Pedro.
  • Regimento 9 de Julho: Em São Paulo, o Regimento de Polícia Montada “9 de Julho” é um dos maiores e mais tradicionais do país, tendo participado ativamente de momentos cruciais da história política do estado.
  • Equoterapia: Quase todos os regimentos de cavalaria das PMs do Brasil mantêm projetos sociais de equoterapia. O mesmo cavalo que dispersa um tumulto no domingo é o animal dócil que ajuda no desenvolvimento motor e psicológico de uma criança na segunda-feira.
  • O fator 10 para 1: Especialistas em segurança pública estimam que um único policial montado tem o mesmo efeito de controle de multidões que dez policiais a pé. Isso torna a cavalaria uma solução extremamente econômica para o Estado em termos de gerenciamento de recursos humanos.

O uso de cavalos na segurança pública é, portanto, a união perfeita entre tradição e eficiência operacional. Enquanto houver necessidade de manter a ordem em grandes aglomerações com o mínimo uso de força letal, a cavalaria continuará sendo uma peça central na doutrina de policiamento moderna.

Se você está se preparando para o concurso de alguma Polícia Militar ou tem interesse na área, entender essas especializações é fundamental para escolher o seu caminho dentro da corporação.

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