Centauro II: o novo caçador de tanques do Exército Brasileiro

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O cenário da defesa terrestre no Brasil passa por uma de suas transformações mais profundas com a chegada do Centauro II. Este blindado sobre rodas, de fabricação italiana, não é apenas uma viatura nova; ele representa uma mudança de doutrina e um salto tecnológico sem precedentes para a Cavalaria do Exército Brasileiro (EB).

Escolhido para ser a espinha dorsal da força de blindados sobre rodas, o Centauro II combina o poder de fogo de um carro de combate principal com a agilidade e a facilidade logística de um veículo 8×8.

Neste artigo, exploraremos detalhadamente por que este veículo é considerado o estado da arte em sua categoria, as polêmicas jurídicas que envolveram sua aquisição e como ele transformará a capacidade de defesa do território nacional.

O que é o Centauro II e por que ele é inovador?

O Centauro II é uma viatura blindada de cavalaria (VBC Cav) desenvolvida pelo consórcio italiano Iveco-Oto Melara (CIO). Ele é o sucessor do Centauro original, que foi o primeiro blindado 8×8 do mundo a ostentar um canhão de 105 mm com o poder de fogo de um tanque pesado.

A versão II, no entanto, eleva o patamar ao adotar um canhão de 120 mm de alma lisa, o mesmo calibre utilizado por tanques de guerra massivos, como o M1 Abrams dos Estados Unidos ou o Leopard 2 alemão. A grande inovação reside na capacidade de disparar essa munição pesada a partir de uma plataforma sobre rodas, que é consideravelmente mais leve e rápida do que os veículos sobre lagartas tradicionais.

Por que o Exército Brasileiro escolheu o Centauro II?

A escolha do Centauro II foi o resultado de uma disputa internacional rigorosa no âmbito do projeto VBC Cav. O Exército buscava um substituto para o envelhecido EE-9 Cascavel, um blindado brasileiro que, embora heroico e bem-sucedido em exportações, já não possui o poder de fogo ou a proteção blindada necessários para os conflitos modernos.

Os principais motivos para a vitória do Centauro II sobre concorrentes como o LAV 700 e o ST1-BR foram:

  • Poder de fogo superior: O canhão de 120 mm permite enfrentar praticamente qualquer ameaça blindada na América do Sul.
  • Comunalidade logística: A Iveco já possui uma fábrica de blindados em Sete Lagoas (MG), onde produz o VBTP-MR Guarani. Isso facilita a manutenção e o suprimento de peças.
  • Mobilidade: Sendo um veículo 8×8, ele pode se deslocar rapidamente pelas rodovias brasileiras sem a necessidade de pranchas de transporte pesadas em curtas e médias distâncias.
  • Tecnologia de mira: O sistema de controle de tiro é um dos mais avançados do mundo, permitindo precisão absoluta mesmo com o veículo em movimento e em condições de baixa visibilidade.

Características técnicas e armamento

Para entender a força deste blindado, é preciso analisar seus componentes técnicos. O Centauro II não é apenas um “caminhão com canhão”, mas uma máquina de guerra integrada.

O canhão de 120 mm / 45 calibres

Este é o coração do veículo. O canhão de alma lisa de 120 mm é compatível com as munições padrão da OTAN. Ele possui um freio de boca tipo “pepper-pot” que reduz drasticamente o recuo, permitindo que a estrutura sobre rodas suporte o impacto do disparo sem perder a estabilidade. Além disso, o veículo conta com um sistema de carregamento semiautomático, reduzindo a carga de trabalho da guarnição.

Proteção blindada e sobrevivência

Diferente dos blindados antigos, o Centauro II foi projetado com foco na sobrevivência da tripulação contra ameaças modernas, como minas terrestres e Dispositivos Explosivos Improvisados (IEDs). O chassi em “V” ajuda a defletir a explosão de minas para fora da cabine. A blindagem é modular, o que significa que pode ser reforçada dependendo do nível de ameaça da missão.

Motorização e desempenho

Equipado com um motor Iveco Vector 8V Euro 3 de 720 cavalos de potência, o Centauro II atinge velocidades superiores a 105 km/h. Com uma autonomia de 800 quilômetros, ele pode cobrir grandes áreas de fronteira com rapidez, uma necessidade estratégica para um país de dimensões continentais como o Brasil.

A diferença entre o Centauro II e o Leopard 1A5

Uma dúvida comum entre entusiastas é: “Se já temos o Leopard 1A5, por que precisamos do Centauro II?”. A resposta reside na especialização.

O Leopard 1A5 é um Carro de Combate Principal (MBT) sobre lagartas. Ele é excelente para combate em terrenos lamacentos ou arenosos onde as rodas poderiam atolar, mas sua logística é cara e seu deslocamento por estradas exige carretas especiais para não destruir o asfalto.

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O Centauro II é uma Viatura de Cavalaria. Sua função é o reconhecimento armado e a resposta rápida. Ele chega ao local da crise muito antes dos tanques pesados. Além disso, o canhão de 120 mm do Centauro II é tecnologicamente superior ao de 105 mm do Leopard 1A5 brasileiro, garantindo maior capacidade de perfuração de blindagens inimigas.

Característica Centauro II (VBC Cav) Leopard 1A5 (MBT)
Fabricante Consórcio Iveco-Oto Melara (CIO) Krauss-Maffei Wegmann (KMW)
Sistema de tração Sobre rodas (8×8) Sobre lagartas
Armamento principal Canhão 120 mm / 45 cal (alma lisa) Canhão 105 mm L7A3 (alma raiada)
Carregamento de munição Semiautomático Manual
Peso (combate) ~30 toneladas ~42,5 toneladas
Velocidade máxima > 105 km/h ~65 km/h
Autonomia operacional 800 km ~450 km (estrada)
Proteção contra minas/IEDs Alta (Chassi em V) Baixa (Projeto original)
Eletrônica de tiro Totalmente digital integrada Analógica/Digital adaptada
Mobilidade estratégica Excelente (Rodovias/KC-390) Limitada (Exige pranchas)

O impacto na indústria de defesa brasileira

A aquisição do Centauro II não envolve apenas a compra de veículos prontos da Itália. O contrato prevê a transferência de tecnologia e a participação de empresas brasileiras na cadeia de suprimentos.

Espera-se que a Iveco Defense Vehicles no Brasil desempenhe um papel crucial na manutenção e possivelmente na montagem de componentes. Isso gera empregos qualificados e garante que o país não fique totalmente dependente de fornecedores estrangeiros em caso de conflito, fortalecendo a Base Industrial de Defesa (BID).

A polêmica judicial e a suspensão da compra

Em dezembro de 2022, a compra do Centauro II enfrentou um revés jurídico. Uma liminar chegou a suspender o contrato, sob a alegação de que o gasto seria inadequado em um momento de restrições orçamentárias. No entanto, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) derrubou a suspensão pouco tempo depois.

O argumento vencedor foi que o projeto é de longo prazo (estendendo-se por mais de uma década) e que a defesa nacional é uma política de Estado, não de governo. A interrupção do contrato traria prejuízos diplomáticos e deixaria a cavalaria brasileira obsoleta, uma vez que o Cascavel está chegando ao fim de sua vida útil e não oferece mais segurança às tropas.

Como o Centauro II atua em combate?

O emprego tático do Centauro II é baseado na filosofia da “Cavalaria Mecanizada”. Imagine uma situação de invasão de fronteira. Devido à sua alta velocidade em estrada, os Centauros seriam os primeiros a interceptar as forças inimigas.

Com seus sistemas de optrônicos (visão térmica e telemetria laser), eles podem identificar alvos a quilômetros de distância e disparar antes mesmo de serem vistos. Sua capacidade de “atirar e fugir” (shoot and scoot) é vital: ele dispara seu potente canhão e, em segundos, já mudou de posição, dificultando o contra-ataque da artilharia inimiga.

Principais dúvidas sobre o Centauro II no Brasil

Quantas unidades o Brasil vai comprar?

O plano inicial prevê a aquisição de 98 unidades. As duas primeiras viaturas de amostra já passaram por testes intensivos no Centro de Avaliações do Exército (CAEx) para garantir que o veículo se adapta ao clima e terreno brasileiros.

Ele pode ser transportado pelo KC-390?

Sim. Um dos requisitos do Exército era a projetabilidade. O Centauro II pode ser transportado por aeronaves de carga como o Embraer KC-390 Millennium, o que permite que um esquadrão de blindados seja enviado do Rio Grande do Sul para a Amazônia ou para o Nordeste em poucas horas.

O canhão de 120 mm é exagero para a América do Sul?

Não. Vários países vizinhos modernizaram seus parques de blindados ou adquiriram mísseis antitanque avançados. Ter um canhão de 120 mm garante que o Brasil mantenha o poder de dissuasão, ou seja, desencoraja qualquer intenção hostil apenas pela presença de uma arma de tal magnitude.

Qual é o custo de cada unidade?

Embora os valores variem conforme os pacotes de peças e treinamento, o investimento total estimado para as 98 unidades gira em torno de 3,3 bilhões de reais, diluídos ao longo de vários anos de contrato.

O futuro da cavalaria mecanizada

O Centauro II é o topo de uma pirâmide que inclui o Guarani (transporte de tropas) e o futuro blindado de reconhecimento leve. Juntos, eles formam uma força moderna, conectada por sistemas de rádio digital e comando e controle de última geração.

A transição do Cascavel para o Centauro II é comparável a sair de um carro popular da década de 70 para um veículo de Fórmula 1 moderno. A precisão dos computadores de tiro, a estabilização do canhão (que permite acertar um alvo movendo-se a 50 km/h em terreno acidentado) e o conforto térmico e ergonômico para a tripulação mudam completamente o moral e a eficiência da tropa.

Importância estratégica

O Centauro II coloca o Exército Brasileiro em um patamar de igualdade com as forças mais modernas do mundo. Ele resolve a lacuna de poder de fogo da cavalaria sobre rodas e oferece uma plataforma versátil que pode ser utilizada tanto em missões de defesa de território quanto em operações de paz das Nações Unidas, onde a presença de um blindado imponente ajuda a manter a ordem e a segurança.

A chegada deste “caçador de tanques” é uma vitória para a soberania nacional e um passo decisivo para que o Brasil possua uma força terrestre capaz de responder aos desafios do século XXI.

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