O cenário das guerras modernas mudou drasticamente nos últimos anos. Se antes as grandes ameaças vinham de caças supersônicos ou mísseis balísticos de alto custo, hoje o perigo pode vir de um pequeno dispositivo de plástico que custa poucos dólares, comprado em sites de varejo e adaptado para carregar granadas.
A guerra na Ucrânia e conflitos recentes no Oriente Médio deixaram claro: drones (ou SARP – Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas) são a nova realidade do campo de batalha.
No Brasil, o Exército Brasileiro (EB) tem acompanhado essa evolução de perto. A proteção de tropas, instalações estratégicas e eventos de grande visibilidade exige o que chamamos de sistemas C-UAS (Counter-Unmanned Aircraft Systems).
Mas quais são as armas que o nosso exército utiliza para enfrentar essa ameaça? Este artigo detalha as tecnologias, os equipamentos e a estratégia da Força Terrestre para neutralizar drones.
O desafio de abater um drone
Diferente de um avião convencional, um drone é pequeno, voa baixo e possui uma assinatura de radar reduzida. Isso o torna “invisível” para muitos sistemas de defesa antiaérea tradicionais.
Outro ponto crítico: o custo de usar um míssil de alta tecnologia para abater um drone comercial é financeiramente inviável, você estaria gastando milhões para destruir algo que custa mil reais.
Por isso, o Exército Brasileiro utiliza uma abordagem em camadas, dividida basicamente em duas formas de ação:
- Soft kill (Neutralização eletrônica): Onde se interfere no sinal de rádio ou GPS do drone, fazendo-o pousar ou retornar à base sem destruí-lo fisicamente.
- Hard kill (Destruição física): Onde se utiliza projéteis ou mísseis para desintegrar a ameaça no ar.
Sistemas de neutralização eletrônica (soft kill)
Esta é a linha de frente contra drones comerciais e de pequeno porte (Classe 1). O Exército Brasileiro investe pesado em tecnologia nacional para essa finalidade.
Sistema SCE 0100 da IACIT
Um dos marcos recentes da nossa defesa é o sistema SCE 0100, desenvolvido pela empresa brasileira IACIT e já entregue ao Exército. Trata-se de um sistema de contramedidas eletrônicas de alta precisão.
O funcionamento é baseado em sensores que detectam a presença do drone através da radiofrequência emitida pelo controle remoto ou pelo próprio drone. Uma vez identificado, o SCE 0100 emite um sinal de interferência (jamming) que “inunda” as frequências de comando e de satélite (GPS/GNSS).

O resultado é imediato: o drone perde o link com o operador. Dependendo da programação do aparelho, ele pode iniciar um pouso de emergência ou tentar voltar ao ponto de decolagem, mas em ambos os casos, a missão de espionagem ou ataque é interrompida.
Dispositivos portáteis (rifles antidrone)
Em grandes eventos, como a posse presidencial ou operações de segurança pública em apoio a outros órgãos, é comum ver militares operando o que parecem ser “rifles futuristas”. Esses são bloqueadores portáteis.
Esses equipamentos são direcionais. O militar aponta para o drone avistado e “dispara” uma onda de interferência. É uma solução extremamente ágil para a proteção de perímetros imediatos, onde o uso de artilharia seria perigoso para civis ou infraestruturas próximas.

Artilharia e destruição física (hard kill)
Quando o drone é de maior porte ou quando a interferência eletrônica não é suficiente (como no caso de drones autônomos que não dependem de sinal externo), entra em cena a força bruta da artilharia antiaérea.
O sistema Gepard 1A2
O VBC AAe (Viatura Blindada de Combate Antiaérea) Gepard 1A2 é, atualmente, o principal meio de destruição física de drones a curta distância no Exército Brasileiro. Embora seja um projeto veterano, ele se provou extremamente eficaz contra drones no cenário internacional.
O Gepard é equipado com dois canhões Oerlikon de 35 mm. O que o torna uma arma antidrone de excelência não é só a cadência de tiro, mas o seu sistema de radares integrados. Ele possui um radar de busca e um radar de tiro que “trava” no alvo.

Recentemente, a eficácia desse tipo de sistema aumentou com o uso de munições AHEAD (Advanced Hit Efficiency and Destruction).
Essas munições explodem pouco antes de atingir o alvo, liberando uma nuvem de subprojéteis de tungstênio. Para um drone, passar por essa “parede” de metal é fatal.
Mísseis RBS 70 e Igla-S
O Exército também opera mísseis de baixa altura, como o sueco RBS 70 (guiado por feixe de laser) e o russo Igla-S (guiado por calor).
- RBS 70: É muito difícil de ser enganado por contramedidas, pois o operador mantém o laser no alvo até o impacto. É ideal contra drones maiores que realizam vigilância em altitudes superiores às dos canhões.
- Igla-S: Embora focado em alvos com maior assinatura térmica (como motores de helicópteros), pode ser empregado contra drones de médio porte que geram calor suficiente para o sensor.

Os olhos da defesa: radares brasileiros
Não se pode abater o que não se vê. A espinha dorsal da detecção de drones no Brasil é composta pelos radares da família SABER, desenvolvidos pela Embraer em parceria com o Centro Tecnológico do Exército (CTEx).
Radar SABER M60
O SABER M60 é um radar de busca de baixa altura capaz de rastrear alvos em um raio de até 60 quilômetros e 5.000 metros de altitude. Ele é leve, pode ser montado em menos de 15 minutos e é transportado por viaturas 4×4.
A versão 2.0 deste radar possui softwares aprimorados especificamente para identificar alvos pequenos e lentos, diferenciando um drone de um pássaro, por exemplo.

Ele envia os dados para um Centro de Operações Antiaéreas, que decide qual arma (Gepard, míssil ou bloqueador eletrônico) deve ser acionada.
Radar SABER M200 Vigilante
Este é um radar ainda mais moderno, do tipo AESA (Varredura Eletrônica Ativa). Ele tem maior capacidade de detectar múltiplos drones simultaneamente e é mais resistente a tentativas de interferência eletrônica por parte do inimigo. O M200 é uma peça-chave para a futura defesa de média altura do Brasil.

A doutrina de emprego do Exército Brasileiro
O Exército não vê a arma antidrone como uma solução isolada, mas como parte de um sistema integrado. No Brasil, essa coordenação é feita pela Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea (EsACosAAe) e pelas unidades operacionais espalhadas pelo país.
A doutrina atual prioriza a proteção de infraestruturas críticas, como usinas hidrelétricas, refinarias e sedes de governo. Em situações de combate, as armas antidrone protegem as colunas de blindados (como os tanques Leopard e os guaranis) contra o reconhecimento aéreo adversário.
O futuro: sistemas de energia dirigida e drones caçadores
O Exército Brasileiro continua pesquisando novas fronteiras. O futuro da defesa antidrone aponta para duas direções:
- Lasers (Energia Dirigida): O uso de lasers para “queimar” a eletrônica ou a estrutura dos drones. O custo por disparo é quase zero, o que resolve o problema econômico de abater drones baratos.
- Drones interceptadores: O uso de “drones contra drones”. Pequenos aparelhos rápidos e manobráveis que podem colidir ou lançar redes contra drones invasores.
Por que isso é importante para o cidadão?
Você pode se perguntar: “Por que investir tanto em armas antidrone?”. A resposta está na segurança nacional. Hoje, drones são usados pelo crime organizado para monitorar fronteiras, entregar celulares e armas em presídios e realizar vigilância contra forças de segurança.
Com essas tecnologias, o Exército Brasileiro não foca apenas em uma guerra convencional, mas na proteção interna do país, garantindo que o espaço aéreo brasileiro (em qualquer altitude) permaneça sob controle das autoridades.

