Terço dos Henriques: a história dos soldados negros na insurreição Pernambucana

A história militar do Brasil é repleta de episódios de superação, táticas de guerrilha e organização estratégica. Um dos capítulos mais marcantes é a criação e atuação do Terço dos Henriques.

Essa unidade militar, composta exclusivamente por homens negros (pretos livres e escravizados), desempenhou um papel crucial na Insurreição Pernambucana (1645 a 1654), o conflito que resultou na expulsão dos holandeses do Nordeste do Brasil.

Compreender o Terço dos Henriques ajuda a entender a evolução das forças de defesa no país. A unidade demonstrou como a organização, a disciplina e o conhecimento do terreno foram determinantes para derrotar um dos exércitos mais modernos da Europa naquela época.

O cenário da insurreição Pernambucana e a invasão holandesa

No século 17, o Nordeste brasileiro era o centro produtor de açúcar mais cobiçado do mundo. Atraída por essa riqueza, a Companhia das Índias Ocidentais (uma poderosa empresa de comércio holandesa) invadiu a região em 1630. Os holandeses estabeleceram um domínio que durou anos, trazendo uma nova administração, investimentos em infraestrutura e tolerância religiosa sob o governo do Conde Maurício de Nassau.

Conde Maurício de Nassau

A situação mudou quando Nassau retornou à Europa e a Companhia das Índias Ocidentais passou a cobrar de forma agressiva as dívidas dos senhores de engenho locais. O descontentamento cresceu rapidamente, criando o ambiente perfeito para a revolta. Em 1645, iniciou-se a Insurreição Pernambucana, um movimento de resistência que uniu diferentes grupos da sociedade colonial contra a ocupação estrangeira.

Para enfrentar os holandeses, os moradores da colônia não podiam contar com um exército regular enviado por Portugal, que enfrentava suas próprias guerras na Europa.

A solução foi a organização de milícias locais baseadas na divisão étnica da colônia. O exército luso-brasileiro foi estruturado em três grandes terços (unidades militares equivalentes aos atuais regimentos). O Terço dos Brancos era liderado por André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira, o Terço dos Índios ficava sob o comando de Filipe Camarão, e o Terço dos Negros era chefiado por Henrique Dias.

Quem foi Henrique Dias, o governador dos crioulos e pretos

A criação do Terço dos Negros está diretamente ligada à liderança de Henrique Dias. Pouco se sabe sobre os seus primeiros anos de vida, mas os registros históricos apontam que ele era um homem negro livre, nascido no Brasil (conhecido na época pelo termo “crioulo”). Logo após a invasão holandesa, ele se voluntariou para lutar ao lado das forças portuguesas.

Henrique Dias

Henrique Dias destacou-se rapidamente por sua bravura, inteligência tática e capacidade de liderança. Ele possuía uma habilidade única para recrutar homens negros, tanto livres quanto escravizados que buscavam a liberdade em troca do serviço militar.

O seu prestígio cresceu tanto que a Coroa Portuguesa o nomeou “Governador da gente preta” e “Mestre de Campo”, um dos postos mais altos na hierarquia militar do período colonial.

Sob o seu comando, a tropa de homens negros ganhou uma identidade própria. O batalhão passou a ser chamado de Terço dos Henriques (uma homenagem direta ao nome de seu comandante). Esse nome tornou-se sinônimo de combatentes disciplinados, temidos pelos adversários e especializados em combates de alta intensidade em ambientes de mata fechada.

A estrutura militar e as táticas de guerrilha do terço

Os holandeses possuíam soldados profissionais, armas de fogo modernas e uma doutrina de guerra europeia baseada em formações de linhas abertas em campos limpos. O Terço dos Henriques percebeu logo no início que enfrentar esse exército em campo aberto seria um erro fatal. Henrique Dias e seus comandados adotaram a chamada “guerra de emboscadas” (as táticas de guerrilha).

Os soldados do Terço dos Henriques conheciam profundamente a geografia de Pernambuco, a vegetação de caatinga e as áreas de mangue.

Eles utilizavam esse conhecimento para cortar as linhas de suprimento dos holandeses, atacar comboios de alimentos e desaparecer na mata antes que o inimigo pudesse reagir. Essas ações rápidas de desgaste minavam a moral dos soldados europeus, que sofriam com o calor, as doenças tropicais e o medo constante de ataques surpresa.

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O armamento da unidade incluía armas de fogo (como arcabuzes e mosquetes capturados do próprio inimigo), mas as armas brancas (facões, lanças e espadas) eram as mais utilizadas nos combates corpo a corpo após as emboscadas. A agilidade dos combatentes negros compensava a falta de artilharia pesada.

As batalhas de Guararapes e o triunfo sobre os holandeses

O ápice da atuação do Terço dos Henriques ocorreu nas duas Batalhas dos Guararapes (ocorridas em 1648 e 1649), travadas no Morro dos Guararapes, na atual cidade de Jaboatão dos Guararapes. Esses confrontos foram decisivos para selar o destino da ocupação holandesa no Brasil.

Na Primeira Batalha dos Guararapes (19 de abril de 1648), as forças holandesas tentaram avançar para o sul. O exército luso-brasileiro ocupou as posições elevadas dos morros. O Terço dos Henriques ficou posicionado em uma área estratégica, resistindo firmemente às investidas da infantaria holandesa. Henrique Dias foi ferido gravemente no braço esquerdo durante o combate, mas recusou-se a deixar o campo de batalha, afirmando que a presença de seu corpo bastava para animar os seus soldados. A batalha terminou com uma vitória esmagadora dos defensores da colônia.

Na Segunda Batalha dos Guararapes (19 de fevereiro de 1649), os holandeses voltaram a ser derrotados pela mesma coordenação entre os terços de brancos, índios e negros. O Terço dos Henriques atuou com extrema agressividade no combate corpo a corpo, forçando a retirada dos invasores para a cidade fortificada do Recife, onde ficariam cercados até a rendição final em 1654.

Direitos e privilégios conquistados pelo terço militar

O serviço militar no Terço dos Henriques não era apenas uma questão de defesa do território, representava também uma das poucas vias de ascensão social e conquista de direitos para a população negra no Brasil colonial.

Henrique Dias negociou firmemente com a Coroa Portuguesa para garantir que os homens escravizados que lutassem em seu terço recebessem a alforria (a liberdade) após o término dos conflitos. Muitos desses soldados conseguiram a liberdade como recompensa por sua bravura em combate.

O próprio Henrique Dias foi condecorado com a prestigiada Hábito da Ordem de Cristo, uma honraria que normalmente era reservada apenas à nobreza branca e aos grandes proprietários de terras.

O Terço dos Henriques manteve uma estrutura autônoma. Os oficiais eram homens negros que exerciam autoridade real sobre as suas tropas, algo inédito em uma sociedade profundamente escravista. Os membros da unidade tinham direito a foro militar próprio, o que significava que eles não podiam ser julgados por juízes civis comuns, apenas por seus próprios tribunais militares.

O legado dos Henriques na história do exército brasileiro

Após o fim da Insurreição Pernambucana e a expulsão definitiva dos holandeses, o Terço dos Henriques não foi desfeito. A Coroa Portuguesa percebeu a utilidade de manter unidades militares formadas por homens pretos e pardos para a defesa interna e externa da colônia.

O modelo dos “Henriques” foi replicado em outras províncias do Brasil (como Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais), funcionando como tropas de segunda linha e forças de guarnição ao longo dos séculos 17 e 18.

O Exército Brasileiro reconhece oficialmente a Insurreição Pernambucana e as Batalhas dos Guararapes como o berço da força terrestre nacional. Essa associação ocorre porque, naquele momento histórico, diferentes etnias que compunham a população (brancos, indígenas e negros) lutaram de forma coordenada sob o mesmo ideal de defesa da terra.

O Terço dos Henriques é o precursor direto da participação da população negra nas forças de defesa do Brasil. A memória de Henrique Dias é cultuada nas escolas de formação militar, como a Escola de Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) e a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), como um exemplo de liderança, patriotismo e superação das adversidades.

Perguntas frequentes sobre o terço dos Henriques

O que era o Terço dos Henriques?

Era uma unidade militar regular (equivalente a um regimento) formada exclusivamente por homens negros (livres e escravizados) criada para lutar contra os invasores holandeses em Pernambuco no século 17.

Quem foi o principal comandante da unidade?

O comandante foi Henrique Dias, um homem negro livre nascido no Brasil que se tornou Mestre de Campo e recebeu o título de Governador da gente preta por sua atuação na guerra.

Qual foi a importância do terço na insurreição Pernambucana?

A unidade foi fundamental na aplicação de táticas de guerrilha e emboscadas na mata, além de ter tido uma participação decisiva nas vitórias das duas Batalhas dos Guararapes (1648 e 1649).

Os escravizados que lutavam no terço ganhavam a liberdade?

Sim, a liberdade era uma das principais promessas e recompensas concedidas pela Coroa Portuguesa aos soldados escravizados que demonstravam bravura no combate aos holandeses.

Por que esse tema é cobrado em concursos militares?

O tema é recorrente em concursos (como ESA, EsPCEx e Colégio Militar) porque o Terço dos Henriques faz parte dos episódios de Guararapes, considerados oficialmente pelo Exército Brasileiro como o momento de nascimento da força terrestre nacional.

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