Vida militar de Jair Bolsonaro: trajetória, formação na AMAN e histórico no Exército

A trajetória militar de Jair Messias Bolsonaro representa uma etapa central para compreender a sua projeção pública e o início de sua atuação política no Brasil.

Antes de exercer mandatos eletivos no Legislativo e atingir a Presidência da República, o oficial da reserva construiu uma carreira de cerca de 15 anos no Exército Brasileiro, passando pelos bancos escolares de formação, por unidades operacionais de artilharia e pela Brigada de Infantaria Paraquedista.

Entender os detalhes desse período permite desmistificar boatos e analisar, com base em registros históricos e documentos institucionais, como funcionou a formação, quais funções foram exercidas na caserna e os eventos que marcaram sua passagem para a reserva remunerada.

O Ingresso nas Forças Armadas e a Formação Inicial

O primeiro contato formal de Jair Bolsonaro com o ensino militar ocorreu no início da década de 1970. Em 1973, ele ingressou na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), sediada em Campinas (SP). A instituição funciona tradicionalmente como a porta de entrada para jovens que desejam disputar as vagas da formação de oficiais combatentes de carreira do Exército Brasileiro.

Concluída a etapa preparatória, ele foi admitido na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), localizada em Resende (RJ), centro formador do oficialato da linha de ensino militar bélico. Durante a formação acadêmica e tática, os cadetes passam pelo período básico comum e, em seguida, optam pela arma, quadro ou serviço que pretendem seguir ao longo da vida militar.

Bolsonaro escolheu a arma de Artilharia, ramo do Exército encarregado de prover apoio de fogo às unidades de infantaria e cavalaria por meio de obuseiros, morteiros pesados e mísseis. A formatura ocorreu em dezembro de 1977, quando ele foi declarado aspirante a oficial.

Especializações e Cursos Operacionais no Exército

Ao longo da permanência na Força Terrestre, os oficiais são incentivados a realizar cursos de especialização técnica e de capacitação física e tática. Entre as qualificações obtidas por Jair Bolsonaro, destacam-se:

Curso Básico de Paraquedista Militar

Ainda no ano de 1977, Bolsonaro completou a formação no Centro de Instrução Paraquedista General Penha Brasil, localizado no Rio de Janeiro. A formação paraquedista é conhecida pelo elevado rigor físico e psicológico, habilitando o militar a realizar lançamentos de aeronaves militares em voo para emprego rápido em operações aeroterrestres.

Curso de Mergulho Autônomo

Dentro das qualificações complementares, ele realizou treinamento de mergulho livre e autônomo, capacitação que permite a realização de tarefas subaquáticas em apoio a manobras de travessia, busca e reconhecimento em meio aquático.

Educação Física Militar

Bolsonaro formou-se também na Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx), instituição tradicional do Exército localizada na Fortaleza de São João, no Rio de Janeiro. A capacitação na EsEFEx confere a habilitação necessária para o planejamento de treinamentos de condicionamento da tropa, instrução de testes de aptidão física (TAF) e orientação desportiva das unidades.

Unidades em que Serviu e Rotina Operacional

Após a declaração como aspirante a oficial e a posterior promoção a segundo-tenente e primeiro-tenente, o militar serviu em diferentes guarnições militares:

  1. 21º Grupo de Artilharia de Campanha (Niterói – RJ): unidade tradicional voltada ao emprego da artilharia de tubo, na qual atuou em baterias operacionais e conduziu rotinas de tiro e adestramento de recrutas.
  2. 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista (Rio de Janeiro – RJ): integrando a Brigada de Infantaria Paraquedista, serviu nessa unidade entre os anos de 1983 e 1986. As atividades exigiam manutenção periódica do salto armado e equipado, além de exercícios de desdobramento de peças de artilharia transportadas por aeronaves militares da Força Aérea Brasileira.
  3. 9º Grupo de Artilharia de Campanha (Nioaque – MS): localizado na região centro-oeste, o regimento fronteiriço integrava as missões de soberania territorial e patrulhamento na fronteira brasileira, consolidando a rotina do oficial em guarnições distantes dos grandes centros urbanos.

Nas avaliações funcionais de época, relatórios de superiores registraram tanto aptidão física destacada e dedicação aos treinamentos desportivos quanto observações sobre ambição profissional e atritos na convivência interpessoal com alguns pares de farda.

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O Artigo na Revista Veja em 1986 e a Primeira Punição Disciplinar

A projeção de Jair Bolsonaro para o debate público ocorreu no final de 1986, período em que o Brasil vivenciava a redemocratização (Governo Sarney) e enfrentava um cenário de forte inflação.

Naquele momento, as Forças Armadas sofriam com o arrocho salarial, situação que gerava descontentamento silencioso nos quartéis em virtude da rígida hierarquia e da vedação constitucional e regulamentar a manifestações públicas e reivindicações de classe.

Bolsonaro, então capitão em exercício, assinou e publicou na revista Veja um artigo intitulado “O salário está baixo”. No texto, o oficial argumentava que a remuneração corroída pela inflação estava provocando um êxodo de oficiais e sargentos qualificados das Forças Armadas para o setor civil, comprometendo a operacionalidade dos quadros da instituição.

A publicação do texto sem autorização prévia do escalão superior violava frontalmente o Regulamento Disciplinar do Exército (RDE). Em consequência da infração militar, o capitão foi punido com 15 dias de prisão disciplinar. O episódio chamou a atenção de parlamentares, oficiais da ativa e familiares de militares, que viram no capitão um porta-voz informal das angústias financeiras da tropa.

A Operação Beco Sem Saída e o Julgamento no Superior Tribunal Militar

Em 1987, a revista Veja publicou uma reportagem intitulada “Pôr bombas nos quartéis, um plano na EsAO”, relatando a existência de uma articulação interna (denominada de “Operação Beco Sem Saída”). O suposto plano visava detonar explosivos de baixa potência em locais estratégicos (como banheiros da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e canalizações de água) para pressionar o comando militar e o governo a concederem aumento salarial à categoria.

A reportagem trazia um croqui manuscrito atribuído a Bolsonaro. O militar negou peremptoriamente a autoria das anotações e a existência de qualquer plano terrorista.

O caso desencadeou um Conselho de Justificação, processo administrativo instaurado pelo Exército para julgar se um oficial reúne condições morais e disciplinares de permanecer nos quadros da ativa:

  • O Conselho de Justificação do Exército, composto por três coronéis, concluiu inicialmente pela condenação de Bolsonaro por quebra de ética e disciplina.
  • A decisão foi remetida ao Superior Tribunal Militar (STM) para julgamento colegiado definitivo.
  • Em junho de 1988, os ministros do STM, por maioria de votos, acolheram os recursos da defesa, apontando inconsistências nas perícias grafotécnicas e falta de provas materiais contundentes sobre os croquis, decidindo pela absolvição de Jair Bolsonaro.

A Transição para a Reserva e o Ingresso na Vida Pública

A absolvição no STM encerrou o processo criminal militar, mas o ambiente corporativo interno para a continuidade da carreira do capitão no Exército tornou-se inviável em termos de ascensão e promoção ao oficialato superior (major, tenente-coronel e coronel).

Com o capital político adquirido durante a crise dos salários, Bolsonaro decidiu migrar para a disputa eleitoral civil. Em 1988, candidatou-se a vereador na cidade do Rio de Janeiro pelo Partido Democrata Cristão (PDC), sendo eleito com apoio expressivo de praças, sargentos, subtenentes e pensionistas das Forças Armadas.

Para assumir o mandato parlamentar eletivo, Bolsonaro passou automaticamente para a reserva remunerada do Exército Brasileiro, nos termos da legislação castrense, mantendo a patente de capitão. Nos anos seguintes, utilizou sua base eleitoral militar para conquistar mandatos sucessivos como deputado federal (entre 1991 e 2018) até sua vitória na eleição para a Presidência da República em 2018.

Perguntas Frequentes

1. Qual é a patente militar final de Jair Bolsonaro no Exército?

Jair Bolsonaro foi para a reserva remunerada com a patente de capitão do Exército Brasileiro. Na época de sua passagem para a inatividade, a legislação garantia proventos proporcionais correspondentes a esse posto de oficial intermediário.

2. Em qual academia militar ele se formou?

Ele graduou-se na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), situada em Resende (RJ), concluindo a formação no ano de 1977.

3. Qual foi a arma escolhida por Bolsonaro durante a formação na AMAN?

Bolsonaro escolheu a arma de Artilharia de Campanha, especialidade das Forças Terrestres responsável pela coordenação e execução de tiros de suporte à infantaria e à cavalaria.

4. Jair Bolsonaro era membro de tropas de elite?

Ele concluiu o Curso Básico de Paraquedista Militar e serviu no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, unidade integrante da Brigada Paraquedista, tropa de pronto-emprego do Exército Brasileiro.

5. Bolsonaro chegou a ser preso enquanto servia no Exército?

Sim. Em 1986, ele cumpriu 15 dias de prisão disciplinar por publicar um artigo sem autorização superior na revista Veja, reivindicando aumento salarial para a tropa e infringindo o Regulamento Disciplinar do Exército.

6. O que foi o caso dos croquis de bombas atribuído ao capitão?

Trata-se de uma matéria veiculada em 1987 pela revista Veja, sugerindo que oficiais planejavam explosões em unidades militares para protestar contra a desvalorização dos salários. Bolsonaro negou autoria das anotações e foi processado militarmente por conta das alegações.

7. Por que Jair Bolsonaro foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM)?

O STM concluiu, por maioria de votos em 1988, que as perícias grafotécnicas nos esboços anexados pela acusação eram inconclusivas e que não existiam provas seguras para condená-lo civil ou criminalmente no tribunal militar.

8. Ele foi expulso do Exército Brasileiro?

Não. Bolsonaro não foi expulso nem reformado compulsòriamente por desonra. Ele passou para a reserva remunerada por conveniência eleitoral após vencer a disputa para o cargo de vereador do Rio de Janeiro no pleito de 1988.

9. Quais outras capacitações e cursos militares ele concluiu?

Além de artilheiro e paraquedista, Bolsonaro formou-se na Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) e realizou o curso de mergulho livre e autônomo.

10. Em quais estados brasileiros Jair Bolsonaro prestou serviço militar?

Durante os seus anos na ativa, serviu em unidades militares sediadas nos estados de São Paulo (EsPCEx), Rio de Janeiro (AMAN, Brigada Paraquedista, Niterói) e Mato Grosso do Sul (9º GAC em Nioaque).

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