A batalha das toninhas e o curioso incidente da Marinha na 1ª guerra mundial

A história militar brasileira guarda episódios de bravura, sacrifício e operações complexas que muitas vezes passam despercebidos nos livros escolares.

Quando o assunto é a participação do país nos grandes conflitos globais do século vinte, a memória popular costuma focar quase que exclusivamente na atuação da Força Expedicionária Brasileira na Itália, durante a segunda guerra mundial.

Pouca gente conhece a fundo os desafios enfrentados pelos marinheiros brasileiros décadas antes, durante a primeira guerra mundial (1914 a 1918), um período marcado por transições tecnológicas severas na guerra naval e por um episódio inusitado que entrou para o folclore das forças armadas: a chamada batalha das toninhas.

Este incidente, ocorrido nas águas próximas ao estreito de Gibraltar em novembro de 1918, costuma ser citado na internet de forma superficial ou em tom de piada. Para quem estuda a história militar com seriedade ou se prepara para ingressar na carreira naval, compreender os bastidores desse evento é fundamental.

Analisar o que aconteceu naquela noite exige olhar para o contexto tático da época, as limitações dos equipamentos de detecção, o estresse de combate sob o qual as tripulações operavam e os perigos reais que rondavam o oceano Atlântico.

O contexto histórico e a entrada do Brasil no conflito

Quando a primeira guerra mundial eclodiu na Europa em 1914, o Brasil adotou inicialmente uma postura de neutralidade.

O país mantinha relações comerciais importantes com as nações de ambos os lados da disputa e o governo entendia que o conflito era uma questão restrita às potências europeias. Essa posição começou a mudar drasticamente a partir de 1917, quando o império alemão decretou a guerra submarina irrestrita.

O objetivo de Berlim era sufocar o abastecimento do Reino Unido e da França, atacando qualquer navio mercante que navegasse em direção aos portos aliados, mesmo que pertencesse a uma nação neutra.

Como o Brasil possuía uma frota mercante ativa que exportava café e outros insumos essenciais pelo oceano Atlântico, as embarcações nacionais tornaram-se alvos frequentes dos submarinos alemães (conhecidos como U-boots). Em abril de 1917, o vapor brasileiro Paraná foi torpedeado na costa francesa, resultando na morte de marinheiros nacionais.

U-boots

Nos meses seguintes, outros navios como o Tijuca, o Lapa e o Macau sofreram ataques semelhantes. A pressão popular nas ruas e a violação direta da soberania nacional levaram o presidente Venceslau Brás a declarar estado de guerra contra o império alemão em outubro de 1917.

A partir dessa decisão, o governo brasileiro precisou definir como contribuiria de forma prática com o esforço de guerra dos aliados. Ficou acordado o envio de uma missão médica militar para instalar um hospital em Paris, o envio de aviadores e oficiais do Exército para atuar na frente ocidental e, como principal esforço operacional, a criação de uma força-tarefa da Marinha do Brasil para patrulhar o Atlântico contra a ameaça submarina.

A criação da divisão naval em operações de guerra

Para cumprir a missão acordada com o almirantado britânico, o ministério da Marinha organizou, em 1918, a Divisão Naval em Operações de Guerra (popularmente conhecida pela sigla DNOG). O comando da esquadra foi entregue ao contra-almirante Pedro Max Fernando Frontin, um oficial respeitado e experiente da força naval brasileira.

A missão principal da divisão era patrulhar o triângulo estratégico formado entre Dacar (no litoral africano do Senegal), a ilha de São Vicente (em Cabo Verde) e o estreito de Gibraltar, na entrada do mar Mediterrâneo. Essa rota marítima era vital para o transporte de tropas e suprimentos que vinham da América do Sul e da África rumo à Europa, sendo uma área de caça constante para os submarinos inimigos.

Para compor a frota expedicionária, a Marinha selecionou algumas de suas principais embarcações disponíveis na época:

  • Cruzador Bahia: navio capitânia da divisão, uma embarcação rápida projetada para reconhecimento e escolta.
  • Cruzador Rio Grande do Sul: navio irmão do Bahia, dotado das mesmas características técnicas de velocidade e manobrabilidade.
  • Contratorpedeiros Piauhy, Rio Grande do Norte, Parahyba e Santa Catharina: embarcações leves e ágeis, essenciais para a caça aos submarinos e lançamento de cargas de profundidade.
  • Navio-auxiliar Belmonte: um antigo navio mercante alemão confiscado em portos brasileiros, adaptado para servir como oficina flutuante e depósito de suprimentos para a esquadra.
  • Rebocador de alto-mar Laurindo Pitta: responsável pelo apoio logístico, manobras portuárias e eventuais operações de socorro marítimo.
Cruzador Bahia

A preparação e a travessia do Atlântico expuseram problemas logísticos severos. Os navios brasileiros haviam sido construídos em estaleiros britânicos poucos anos antes da guerra, mas utilizavam caldeiras movidas a carvão de alta qualidade (o carvão Cardiff, importado do País de Gales).

Com a guerra, esse combustível escasseou e as embarcações precisaram queimar carvão nacional ou norte-americano de qualidade inferior, o que gerava desgaste excessivo nas máquinas, fumaça densa e frequentes panes mecânicas em alto-mar.

Os desafios reais da missão e o impacto da gripe espanhola

Antes mesmo de chegar ao teatro de operações europeu, a tripulação brasileira enfrentou dois inimigos letais: os submarinos reais e a pandemia de gripe espanhola.

Em agosto de 1918, enquanto navegava rumo a Dacar, a esquadra brasileira teve seu verdadeiro batismo de fogo. Durante a noite, um submarino alemão disparou um torpedo contra a formação nacional. A vigília atenta permitiu que os navios manobrassem a tempo de evitar o impacto, e os contratorpedeiros brasileiros contra-atacaram imediatamente com cargas de profundidade. O almirantado britânico chegou a registrar o afundamento do submarino inimigo naquela ação da Marinha do Brasil.

Pouco depois, ao atracar em Dacar para reabastecimento e manutenção em setembro de 1918, a divisão foi atingida de maneira devastadora pelo vírus da gripe espanhola. A doença espalhou-se rapidamente pelos compartimentos fechados e quentes dos navios de guerra. Em poucos dias, mais de noventa por cento das tripulações caíram doentes, afetando desde os marinheiros das praças de máquinas até os oficiais de comando e as próprias equipes médicas de bordo.

O impacto humano foi trágico. Mais de cem militares brasileiros perderam a vida em decorrência da doença no porto africano, sendo sepultados no cemitério de Dacar.

Mesmo com o efetivo reduzido, fisicamente debilitado e emocionalmente abalado pela perda dos companheiros de farda, o almirante Frontin reorganizou as guarnições sobreviventes. Assim que os marinheiros recuperaram condições mínimas de operação, a divisão suspendeu âncoras no início de novembro de 1918 para cumprir a ordem do almirantado inglês: seguir para Gibraltar e reforçar a defesa da entrada do Mediterrâneo.

Pedro de Frontin

O que foi a batalha das toninhas e como ocorreu o incidente

O episódio que ficaria conhecido como a batalha das toninhas aconteceu justamente nessa travessia entre a costa africana e o estreito de Gibraltar, nos dias que antecederam o fim oficial da primeira guerra mundial. Para entender a reação dos marinheiros brasileiros, é preciso visualizar o cenário tático daquela semana.

O estreito de Gibraltar era uma das zonas mais perigosas do mundo para a navegação aliada.

No dia 9 de novembro de 1918, o encouraçado britânico HMS Britannia (navio que havia sido designado para encontrar e escoltar a esquadra brasileira na chegada à região) foi torpedeado e afundado pelo submarino alemão UB-50 no cabo Trafalgar, muito próximo da rota da divisão brasileira. O comando naval aliado emitiu alertas máximos de rádio informando ao almirante Frontin que diversos submarinos inimigos operavam naquela exata posição, buscando alvos de oportunidade antes que um eventual armistício fosse assinado.

A esquadra brasileira navegava à noite sob regime de escurecimento total (sem luzes externas acesas para evitar a identificação pelos periscópios inimigos), com as guarnições de artilharia a postos junto aos canhões e os vigias forçando a vista na escuridão do oceano. A tensão a bordo do cruzador Bahia era extrema.

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Em determinado momento da madrugada, os vigias do cruzador Bahia avistaram na superfície da água um rastro branco e uma silhueta escura que se movia rapidamente em direção ao costado do navio. Na escuridão, o formato cortando as ondas assemelhava-se perfeitamente à esteira de espuma deixada pelo periscópio de um submarino alemão em posição de ataque ou ao próprio rastro de um torpedo recém-disparado.

Seguindo os protocolos de defesa imediata da época, o alarme de combate soou e a ordem de fogo foi dada sem hesitação. Os artilheiros do cruzador Bahia e das embarcações próximas dispararam suas peças de artilharia rápida contra a área onde o suposto periscópio havia sido avistado, saturando a água com projéteis para destruir a ameaça antes que o navio fosse atingido.

Quando o fogo cessou e a situação foi avaliada, constatou-se que não havia destroços de metal ou manchas de óleo diesel na água. O que os vigias haviam confundido com a torre e o periscópio de um submarino inimigo era, na realidade, um grande cardume de toninhas (mamíferos marinhos da família dos cetáceos, muito semelhantes aos botos e pequenos golfinhos) que nadava agrupado próximo à superfície.

Com os disparos concentrados na água, infelizmente grande parte do grupo de animais acabou atingida.

A realidade tecnológica da guerra naval em 1918

Para o observador contemporâneo, acostumado com a tecnologia militar moderna, pode parecer estranho que um navio de guerra confunda animais marinhos com um submarino de aço. Na realidade operacional de 1918, esse tipo de engano era um fenômeno compreensível e recorrente em todas as marinhas do mundo.

Durante a primeira guerra mundial, a guerra antissubmarino ainda engatinhava.

Os sistemas eletrônicos de detecção submarina (como o sonar ativo, inicialmente chamado de ASDIC) estavam em fase embrionária de testes nos laboratórios aliados e não equipavam a imensa maioria dos navios em operação, incluindo a frota brasileira. O radar também só seria desenvolvido décadas mais tarde, pouco antes da segunda guerra mundial.

Na prática, isso significava que a detecção de um submarino dependia exclusivamente da observação visual humana, com o auxílio de binóculos ópticos simples e refletores luminosos (que raramente podiam ser acesos à noite para não revelar a posição do próprio navio ao inimigo). Os vigias precisavam identificar um tubo de metal de poucos centímetros de diâmetro (o periscópio) projetando-se sobre as ondas de um oceano escuro e agitado.

Qualquer objeto flutuante, tronco de árvore, baleia, cardume de toninhas ou até mesmo a crista de uma onda quebrando de forma atípica gerava exatamente o mesmo efeito visual de uma esteira de periscópio.

Na doutrina naval daquele conflito, o tempo de reação entre avistar um periscópio e sofrer o impacto de um torpedo era de poucos segundos. Se o comandante hesitasse para ter certeza absoluta do que estava na água, seu navio poderia ser partido ao meio, levando centenas de marinheiros para o fundo do mar (como havia acabado de acontecer com o encouraçado britânico HMS Britannia na mesma região).

A instrução tática padrão em todas as frotas aliadas era atirar primeiro ao menor sinal de ameaça suspeita na superfície.

Incidentes semelhantes em outras marinhas pelo mundo

O episódio envolvendo o cruzador Bahia está longe de ser uma exclusividade brasileira na história das operações navais. A névoa da guerra, somada ao cansaço extremo das tripulações e ao medo constante de ataques invisíveis vindos do fundo do mar, produziu dezenas de incidentes idênticos em forças armadas de grandes potências.

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Força naval envolvidaAno e conflitoOcorrência registrada
Marinha Imperial Russa1904 (Guerra Russo-Japonesa)No incidente de Dogger Bank, a esquadra russa confundiu barcos pesqueiros britânicos no mar do Norte com torpedeiros japoneses, abrindo fogo intenso na neblina.
Marinha do Brasil1918 (Primeira Guerra Mundial)Vigilância noturna do cruzador Bahia avistou dorsos de toninhas no estreito de Gibraltar, interpretando o movimento como periscópio de submarino alemão.
Marinha dos Estados Unidos1942 (Segunda Guerra Mundial)Diversos relatórios da guarda costeira e de contratorpedeiros norte-americanos registraram ataques com cargas de profundidade contra cardumes de baleias na costa do Atlântico.
Marinha Real Britânica1982 (Guerra das Malvinas)A moderna fragata HMS Brilliant, mesmo equipada com sonares e sensores computadorizados de última geração, confundiu baleias com submarinos argentinos e disparou torpedos contra os animais.

O caso britânico na guerra das Malvinas, ocorrido sessenta e quatro anos após o incidente brasileiro, é o exemplo técnico mais claro de como o ambiente submarino é complexo.

Mesmo contando com tecnologia eletrônica avançada no final do século vinte, os operadores de sonar da fragata HMS Brilliant interpretaram o retorno acústico de grandes mamíferos marinhos como sendo a assinatura de um submarino inimigo, resultando no disparo de armamento pesado.

Isso demonstra que o disparo ordenado a bordo do cruzador Bahia em 1918 (feito apenas no olho humano e sob alerta real de submarinos na área) foi um reflexo padrão de defesa militar, e não um ato de imperícia isolada.

O legado da divisão naval para a Marinha do Brasil

Poucos dias após o incidente nas águas de Gibraltar, em 11 de novembro de 1918, a Alemanha assinou o armistício que colocou fim aos combates da primeira guerra mundial. Os navios da divisão brasileira chegaram a visitar portos na Inglaterra e em Portugal antes de retornarem ao Rio de Janeiro em meados de 1919, encerrando oficialmente a missão.

Reduzir a participação naval brasileira naquele conflito ao episódio das toninhas é um erro histórico que ignora o sacrifício real dos marinheiros que cruzaram o Atlântico em condições precárias. Do ponto de vista institucional e doutrinário, a operação da Divisão Naval em Operações de Guerra deixou lições valiosas que moldaram a evolução da Marinha do Brasil nas décadas seguintes:

  1. Autonomia logística e industrial: a crise do carvão enfrentada pelos navios brasileiros mostrou que o país não podia depender exclusivamente de insumos e manutenção estrangeira para operar sua frota em tempos de crise, impulsionando projetos de modernização dos arsenais nacionais.
  2. Medicina operativa e sanitária: a tragédia da gripe espanhola em Dacar levou a uma reformulação profunda nos protocolos de saúde naval, higiene de bordo e estrutura médica das Forças Armadas brasileiras.
  3. Doutrina de guerra antissubmarino: o contato direto com as táticas do almirantado britânico preparou a base intelectual dos oficiais brasileiros, conhecimento que seria vital vinte anos depois, quando a Marinha do Brasil precisou escoltar centenas de comboios no litoral nacional contra os submarinos do Eixo na segunda guerra mundial.

Para o jovem ou entusiasta que acompanha a história militar, a batalha das toninhas serve como uma janela interessante para compreender a realidade nua e crua das operações de guerra. Longe do cinema, o combate real envolve escuridão, equipamentos no limite operacional, pressão psicológica extrema e decisões que precisam ser tomadas em frações de segundo para garantir a sobrevivência da tripulação e do navio.

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